Bienal de Veneza 2026

Pousando em Curitiba, tentando fazer aterrissar em mim toda a potência da 61ª  Bienal de Veneza 2026, vivenciada durante a pré-abertura, neste início de maio, e que ainda orbita ao meu redor. Dos pavilhões do Giardini, passando pelo Arsenale e circulando por diversos eventos e mostras paralelas na cidade,  fica claro o poder ancestral nos tempos atuais.

Sendo assim  já começo a organizar as lembranças pela figura materna  como origem e referência que está presente em muitos espaços: Das exposições  do brasileiro Paulo Nazareth e da americana Lorna Simpson na Punta della Dogana até a sensível vídeo instalação Retiro de Natalia Lassalle Morillo no Arsenale.

Outros temas que debatem a identidade e as raízes que nos fixam, os territórios  que  habitamos e os sentimentos que nos  habitam,  se revezam nos espaços expositivos nos levando a questionar quem importa, quem escolhe e manda, quem segue e obedece. Interpelar  realidade(s), verdade(s), fluxos, pensamentos e  desejos. Sabemos quem somos e o que realmente queremos?

Nesta mesma toada, muitas obras resgatam memórias. Outras propõem rompimentos como forma de evitar a repetição de histórias por diversos  motivos: fragilidade, equívoco, insignificância ou simplesmente porque poderiam ter sido originais e próprias. E não reproduções ordinárias limitando vidas e culturas a repetir padrões que não nos servem mais. Enfim como podemos fazer diferente? Diversas obras com evocações de rituais, uso de objetos e artefatos antigos, mostram ritos que propõem uma descodificação de acontecimentos, muitas vezes desacertados, nos insinuando a criação de alternativas.

Pelo Arsenale e Pavilhões do Giardini

Caminhando pelo  Giardini, nos Pavilhões como o da França, e da Alemanha vemos muita matéria: No primeiro o uso principalmente de tecidos, para tentar falar com o imaterial, atingir o íntimo, expor sentimentos, permitir a coexistência mesmo com a multiplicidade de perspectivas e camadas, inclusive psicológicas. No segundo,   belas quando tentam nos mostrar que a vida vale a pena , mesmo com todas as adversidades, mas um alerta para pontos cegos perigosos quando permanecemos  imunes a todos os sinais a nosso redor. Tudo ainda muito estranho, confuso, e ficamos com a sensação que a  vida está em suspenso. Ainda temos que desenvolver essa conversa. E para isso senti  falta  do amor.

E assim, geração após geração imaginamos possibilidades, projetamos dias melhores. Mas a vulnerabilidade física, o  envelhecimento e a morte, tão  parte da vida como respirar nos impõem constantemente  a impermanência e os limites das fronteiras emocionais. A instalação com flores e cordas  de Dan Lie, também no Arsenale, é um exemplo de imaginação  desses estratos além das perdas que eles normalmente representam.

E aí entra o gancho para a tônica de diversos outros artistas, como os apresentados no aprazível pavilhão escandinavo, que   seguem insistindo que na visão holística da natureza, integrando à ela  todos os humanos, estão nossas chances.

O belíssimo pavilhão brasileiro, restaurado neste ano, também se apresenta nesse contexto desafiador  da natureza. Com a mostra Comigo Ninguém Pode, onde Rosana Paulino e Adriana Varejão dão um passo além. Elas  dialogam sobre  espiritualidade, cicatrizes ainda abertas do colonialismo e reparação de forma  poética e quase mítica, respondendo com excelência ao ser integrado à natureza de modo carnal e espiritual.

Diálogo transcultural, conexões profundas e rompimentos geográficos, materiais e o acolhimento de histórias diversas. A terra e a memória aparecem frequentemente  como arquivos, individual e coletivo, não importando se é bom ou não, mas como registro  da existência, da verdade. De quem fomos e o que fizemos.  Um chamado para que não  nos afundemos numa crise, uma crise  de esquecimento, com tantas  histórias perdidas, em vão, e não passemos de sonâmbulos vagando sem rumo. Como a instalação Notebook  de Laurie Anderson no Arsenale nos propõe.

Minor Keys – Tonalidades Menores

Neste contexto fica palpável o tema da edição deste ano: Minor Keys que coloca em  foco a sintonia fina, íntima, a frequência usada  nas  inúmeras linguagens  artísticas usadas como forma de expressão e compreensão. Seu núcleo central, é como os sons de um instrumento com  frequências que ainda precisamos  apreender, tonalidades menores, quase murmúrios que, coletivamente, devemos ouvir. A vídeo instalação do Pavilhão da Polônia, que apresenta o cantos das baleias e de pessoas  surdas concilia de forma estética o mote proposto pela curadoria desta edição. Fica a ideia que é encontrando outras formas de comunicar, ouvir e entender, que poderemos lidar melhor com um tempo onde a realidade está desconectada, estranha, incomoda.

Ainda no Giardini as instalações dos pavilhões da   Grã Bretanha e  Espanha conseguem acolher com leveza em meio as polêmicas políticas e culturais que circulam nesta edição, criando pontos de conexão, intersecção e desterritorialização.

E voltando para as diversas mostras  pela  cidade sigo para o antigo  palácio dos  prisioneiros. Lá está  a mostra de  Taïwan, numa instalação completamente inusitada que usa IA com bom humor nos colocando  como ventríloquos neste mundo de infinitas telas e imagens,  muitas vezes esvaziadas de significado. E é então que a simbologia do prédio interligado ao palácio Ducale pela famosa ponte me faz questionar: Serão esses  nossos últimos suspiros? O que vem depois? O que veio antes? O que está exatamente acontecendo agora?

Essas são as questões que trouxe comigo  na mala. E finalizo para me dirigir à esteira, retirar minha bagagem.

Com amigos visitando as exposições da agenda especial e confraternizando em coquetel à convite da Fundação Bienal de São Paulo, durante a pré-abertura da 61ª  Bienal de Veneza 2026

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